Matéria escrita por mim, Catarina Pace, Isabela Lago, Isabela Santos e Sophia Pietá publicada na Revista Contraponto n°133, p. 22, set/out 2022
No começo dos anos 2000, a estética pop-rock dominou as paradas musicais e as peças de roupa de toda uma geração. Tecidos pretos, de couro e metalizados, camisas de bandas de rock, maquiagens carregadas e acessórios com correntes são alguns dos elementos que expressam o visual desse estilo, junto a cantores e bandas que narram trilhas sonoras de uma tendência que marcou uma cultura com suas músicas fervorosas e sentimentais, como My Chemical Romance, Avril Lavigne e Paramore.
Provando que a moda é cíclica e os estilos ressurgem de acordo com um período histórico ou cultural, a geração Z vive a nostalgia dos anos 2000 e traz de volta as tendências pop-rock para a realidade. De acordo com a jornalista de moda Guilana Mesquita, muito jovens estão descobrindo o que foi esse movimento no passado e se identificando com ele, do mesmo modo que as pessoas do começo dos anos 2000 se identificavam com o grunge, o glam-rock e outros estilos mais antigos. Naquela época o estilo era propagado em redes sociais como o MySpace, o Tumblr e o Fotolog e, atualmente, as mídias também são o grande pilar do pop-rock como o TikTok e o Instagram, que possuem diversos perfis e hashtags com a temática.
Tanto na moda quanto na música, o estilo emo ressurge forte entre a nova geração e o momento atual em que vivemos é uma explicação para esse boom. Após o mundo passar por uma pandemia e quase dois anos de isolamento social, um lado sentimental e sombrio dominou essa geração, que com o alcance das redes sociais puderam se reconectar com os anos 2000 e se identificar com a cultura daquela época.
Mesquita acredita que esse estilo de música mais melancólico e emo cresceu novamente, pois exprime alguns dos sentimentos que a sociedade estava vivendo durante o período de isolamento. E o mesmo ocorre na moda, já que as turbulências vivenciadas foram manifestadas nas roupas, cabelos e maquiagens dessa estética pop-rock. Revisitando o passado de uma forma que a geração atual tem de resgatar toda uma identidade vivida anteriormente, e isso vai além da estética: é uma vivência.

Recentemente, mídias e produções culturais reforçam a tendência em suas trilhas sonoras e figurinos, como por exemplo, o filme Cruella (2021), com seu visual inspirado no punk e a série Stranger Things, com música estilo metal e peças que, apesar de simples à época, viralizaram pela influência da série.
Além da música, peças como botas pesadas e chunky shoes, calças de detegel aque-tec de couro voltam às vitrines, trazendo de volta a nostalgia vintage. Roupas não são as únicas a aderirem à tendência, as cores e tons de cabelo mais vibrantes e artificiais também acompanham a moda. O coque “espetado”, ou “spiky hair” voltou a ser o penteado favorito entre as celebridades.
A vinda dos anos 2000 já foi usada por Billie Eilish, Gigi Hadid e Doja Cat, que além do coque, adotaram o gel de cabelo retomando uma vibe de Matrix (1999) com seus sobretudos pretos e roupas de couro.
Grifes como Chanel e Yves Saint Laurent já anunciam a volta da tendência em seus desfiles: Chanel apostou em cortes de cabelo repicado e delineado e gráfica em seu Resort 2022 Fashion Show, do diretor criativo Virginie Viard, enquanto Saint Laurent retomou peças de alfaiataria e estampas como animal print e xadrez em sua coleção de inverno 2022, de Anthony Vaccarello.
Coleções já datadas de Vivienne Westwood, conhecida por sua influência nas origens do punk, voltam a ser compartilhadas em redes sociais principalmente por seus colares e corpetes. Seus desfiles recentes também investem em xadrez e sapatos de salto plataforma.
A segunda instalação de Matthew M. Williams para a Givenchy Fashion Week 22 contou com botas de cano alto e calças de couro e o próprio logo da marca foi representado em suas roupas com uma fonte semelhante à de logos de bandas de rock. Bruna Marquezine estava presente no desfile e se impressionou com o diretor de criação da grife, Williams. Ela também aderiu à tendência do desfile e usou peças de cor preta e bota de cano alto, que se tornou um ícone dessa estética. Para a revista Vogue, Marquezine afirma que o design da Givenchy faz com que as pessoas se sintam “confiantes, sexy e modernas”.

Quando se trata de representatividade desse movimento no Brasil, vale a menção a Kawallys Junk Couture, que exibiu seu estilo autodenominado “punk tropical” na 48ª Casa de Criadores em 2021. Com o desenvolvimento de uma customização autoral, o estilista Fabio Gurjão levou ao mercado elementos como spikes, animal print e correntes.
O couro, muito presente nos estilos alternativos, também volta a aparecer através de marcas. É o caso da coleção de inverno 2021 da marca Celine e até mesmo da Balenciaga, que em seu desfile de 2022, apresenta correntes e adornos de metal, remetendo ao “fetiche-core”, uma estética sensual e punk. Outras peças desse estilo que se popularizaram foram os harness, as body cages e os látex.
Fora das passarelas, peças que se adequam à estética do rock já fazem parte do dia a dia. O salto plataforma, popularizado pela Versace em 2021 com seu sapato Medusa Head, ganha um aspecto alternativo, em cano alto, tons escuros e textura remetente ao couro. Conhecida como plataforma Angel, é acompanhada de meias calças, minissaias e até casacos oversized.
Outro ar vintage de influência dos anos 2000 são os sapatos tratorados, remetendo ao movimento punk dos anos 1990. Sejam pretos, vermelhos ou brancos, os coturnos são usados com jaquetas, jeans e blazers de alfaiataria.
Um exagero na composição de colares e correntes é usado como complemento de um visual gótico. Elementos como a corrente, os spikes e as gargantilhas grossas compõem o look com hand-bags e bags menores que também levam o elemento da corrente. Além disso, clássicos como o colar com o logo da Vivienne Westwood voltaram a ser procurados.
Na parte de cima, corsets, coletes de couro e com amarrações e body-straps em tons escuros trazem uma estética sensual no meio do rock. Junto a elas, casacos grandes de alfaiataria, como coletes, são usados na temporada de inverno. Camisas com animal print, xadrez e tachas são itens são os prediletos, assim como blusas de tule.
Calças mom jeans, wide leg e cintura baixa também voltam a aparecer graças a essa nostalgia dos anos 2000 e anos 1990 — o jeans, como peça atemporal, ganha esse aspecto alternativo. A cintura baixa também abre espaço para croppeds e baby-chairs, estilo que é ilustrado e influenciado por figuras como Bella Hadid.
Uma coisa que todos têm em comum é a predominância da cor preta e a ausência do colorido, dando um tom melancólico e obscuro ao visual. Correntes e os acessórios resgatam a ideia de amarras, de estar confinado, que ilustra bem a mentalidade daqueles que viveram a pandemia e carregam esse período na aparência. O rock, em sua origem, vem também com a ideia de protesto e contestação à sociedade e à autoridade, o que reflete na situação de muitos jovens em período eleitoral e em seus posicionamentos em pautas sociais.
Giuliana Mesquita também considera o estilo um espaço para a customização e liberdade de expressão, embora hoje em dia as modificações em roupas e aparências fiquem em alta durante a pandemia.
“Eu acho que os principais elementos que voltam são ligados à customização, aos alfinetes, do quadriculado, dos cabelos coloridos. É mais um estilo no geral, que pode ser modificado de acordo com a personalidade da pessoa. Acho que as camisetas de rock também voltam bem com esse conceito”, afirma Mesquita.
Grande parte desse retorno está ligado às redes sociais mais famosas da atualidade como o Twitter, TikTok e Instagram. As redes possuem grande influência nesse estilo a partir delas surgiram vários “influencers” que ganharam destaque no pop-rock atual, tanto na música quanto na moda.
O TikTok recebeu um enorme de popularidade durante a pandemia, e no aplicativo surgiram trends virais com músicas antigas como “I’m Just A Kid”, do Simple Plan, de 2002 e “Dear Maria, Count Me In”, de 2008 do All Time Low, trazendo o estilo de volta aos holofotes. Logo em seguida artistas adeptos ao pop-punk ganharam fama ao viralizarem no app, como Chase Hudson, Nessa Barrett, Jaden Hossler e Olivia Rodrigo.
Rodrigo tem grande contribuição para a volta desse estilo após o lançamento de sua música “Good 4 u” que se tornou a mais tocada em formato streaming no mundo. Seu clipe, dirigido por Petra Collins, contém figurinos inspirados nos anos 2000, som de guitarras e a mistura perfeita entre o pop e rock. Não demorou muito para a música se tornar viral no TikTok, transformando a atriz e cantora em uma referência para o estilo atual.
A moda conquistou a atriz Megan Fox, que passou por uma mudança de estilo recentemente após iniciar seu namoro com o cantor Machine Gun Kelly e começar a ser vestida pela stylist Maeve Reilly. Fox passou a aderir à moda pop-punk e seus looks se tornaram evidência no mundo da moda. Esse tipo de visibilidade fez com que o estilo viralizasse no importante TikTok e Instagram.
Dessa forma, conteúdos como “Get Ready With Me” (no inglês, “arrume-se comigo”) tomaram conta das plataformas, popularizando influencers como Natalia Cangueiro, Malu Borges e tantas outras que ajudam a propagar tendências. Montando looks formados por meia arrastão, cintos com spikes, peças de roupa em xadrez e couro, elas mesclam a cultura pop dos anos 2000 com o punk dos anos 1970, de uma maneira descontraída que estimula seus seguidores a utilizarem e admirarem o estilo vintage descolado, que voltou a estar em alta.
A música também inspirou o novamente o ressurgimento para o pop-rock. Artistas como Olivia Rodrigo, Miley Cyrus, Machine Gun Kelly e Maneskin, trazem a sonoridade e a estética desse gênero em seus trabalhos.

As referências ao gênero não são novas, e podem ser vistas, por exemplo, quando o rapper Vince Staples, em seu álbum de estreia Summertime ’06 (2015), homenageia a capa Unknown Pleasures (1979) da banda punk Joy Division. Ou quando Kanye West interpolou a música Iron Man (1970), do Black Sabbath, em Hell Of A Life (2010), mesmo que esses artistas citados não se considerem membros do estilo pop-punk ou pop-rock.
Por outro lado, esses novos artistas, não só trazem a sonoridade, como carregam a estética e se consideram membros do gênero, subvertendo os conceitos do punk e do rock e revitalizando o estilo. A banda italiana Maneskin, foi vencedora do Eurovision 2021. O quarteto traz de volta a energia e a emoção do cena rock e a modifica para as expressões, ideias e conceitos da geração Z. A banda usa em seus shows roupas combinando, como as bandas de rock clássico, com macacões e roupas de couro. O estilo enérgico da banda, tanto nas músicas como nas roupas, rendeu a eles o convite da Gucci para serem modelos para a campanha da coleção Aria, assinada por Alessandro Michele.
A cantora Olivia Rodrigo é grande exemplo dessa cultura atualmente. Em seu primeiro álbum, SOUR (2021), colocou duas músicas com a produção de pop-rock. A primeira faixa do EP, Brutal, na qual Rodrigo mostra para o público como ela se sente e as principais ideias do trabalho e, também, a música Good 4 u, um pop-rock aceleradíssimo, com instrumental feito em cima de um riff de guitarra e uma bateria verdadeira, construindo a sensação de raiva e tristeza que a artista sentiu ao escrever o álbum.
Além desses exemplos, Miley Cyrus, trouxe o estilo à tona no seu último trabalho, Plastic Hearts (2020) com direito a referência à canção Sympathy For The Devil (1968), do The Rolling Stones, na faixa título. Outros artistas como Willow Smith e Machine Gun Kelly também se aventuraram nesse “novo velho” estilo, levando sonoridades com artistas que faziam muito sucesso e eram exemplo do estilo nos anos 2000, como Avril Lavigne e Travis Barker, ex-baterista do Blink-182.

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