Matéria escrita por mim, Giovanna Takamatu e Eduarda Basso publicada na Revista Contraponto n°135, p. 36, mar/abril 2022
O primeiro registro existente do automobilismo competitivo é de 1894, com a prova “Paris-Rouen”, ocorrida em Paris, na França. A partir disso, o esporte começou a ganhar popularidade, o que impulsionou a criação da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) em 1904. A instituição inspeciona os circuitos e veículos e padroniza todas as categorias anexadas ao automobilismo, incluindo ralis, dragsters, todas as Fórmulas (1, 2, 3 e E), sendo a Fórmula 1 (F1) a divisão de alto escalão. A história desse esporte é extensa, mas, em todo esse tempo, as mulheres nunca conseguiram concretizar sua presença, especialmente nas ordens mais prestigiadas.
A última mulher participante de um Grande Prêmio de Fórmula 1 foi Giovanna Amati, em 1991. Ela foi uma das cinco corredoras que conseguiram alcançar a prestigiosa categoria. A ausência feminina no automobilismo, no entanto, não é somente entre os corredores, e se estende, também, para cargos administrativos, midiáticos e mecânicos. Até as fãs são malvistas e criticadas. É comumente dito que muitas acompanham o esporte apenas em virtude da aparência dos pilotos.
A única forma que as mulheres eram bem-vindas era como grid girls, uma função hoje extinta. Elas tinham tarefas como ajudar a promover patrocinadores e segurar placas. O problema surgiu quando começou a ocorrer a hipersexualização, fazendo com que elas fossem vistas apenas como objetos para agradar o público masculino. Fã de Fórmula 1 desde 2012, a estudante de odontologia Juliana Latufe comentou sobre a possível volta das grid girls: “Acho que seriam totalmente maléficas por colocarem mulheres apenas como um acessório do esporte, e não como fãs que realmente entendem sobre”.
Compreende-se que existe uma misoginia histórica, e que mudanças não são bem-vindas. “A presença de corredoras incomoda. ‘A Fórmula 1 é muito física para as mulheres’”, afirma Helmut Marko, dirigente da Red Bull Racing para Kleine Zeitung ao ser perguntado sobre a possibilidade de mulheres na Fórmula 1. Esses tipos de comentários, restringindo a participação feminina dentro de um espaço considerado apenas de homens, são comuns, tanto por telespectadores, quanto por pessoas de dentro do esporte.
A chefe, administradora de equipe e pilota de kart amador e PRO, além de comissária desportiva do automobilismo paulista, Gabriela Pedron, destaca que não tem como falar que não existe um estigma. Ela disse acreditar que isso é muito mais sobre como as pessoas se desenvolveram, a educação que elas tiveram ou o que acreditam. O importante é, independente de ter algum estigma, é que se a mulher gosta, se ela acredita, ela tem que estar lá independentemente”.
A dificuldade da entrada das pilotas dentro da modalidade não é apenas por causa dessas observações. A falta de patrocínio e a exclusão ativa por parte das equipes dominantes são um dos principais motivos. O automobilismo requer investimento. Por conta disso, muitos pilotos, sem condições de se bancarem sozinhos, precisam de patrocínio, sendo que a maioria das empresas dão preferência para competidores masculinos, por conta do estigma exposto e serem a maioria do grid nas categorias de ponta.
A fim de “resolver” o problema, foi criado em 2019 pela FIA, uma categoria exclusiva para mulheres: a W Series, que concretizou a segregação e dificultou a evolução das mulheres para as séries mais prestigiadas.

A problemática W Series
Há quem diga que o surgimento dessa categoria foi bom para as mulheres, já que criou um espaço para elas. Isso é meia verdade. Ao mesmo tempo que a série permitiu a participação feminina e resolveu parcialmente o problema de financiamento — só foi resolvido quando houve a segregação — ela impediu que as mulheres avançassem e alcançassem as divisões de ponta.
Para exemplificar o impasse que seria a evolução da pilota para divisões, consideraremos o processo para entrar na Fórmula 1. Existem diversos requisitos, mas o mais importante é a Superlicença, adquirida por meio dos pontos que um corredor obtém durante sua carreira em outras categorias. Até 2021, a pontuação conquistada pelas participantes da W Series não contava para a licença. Ou seja, seu objetivo fosse chegar no patamar mais prestigiado do automobilismo, seria necessário entrar em outra série para conquistá-lo. Voltamos então ao problema inicial: falta de interesse por parte dos times para contratar corredoras e falta de investimento.
Em 2022 começou a valer que a 1ª a 8ª colocada na W Series ganharia pontos para a Superlicença. A série faliu antes de completar o calendário, impossibilitando que as participantes acumulassem pontos suficientes para evoluir. Apesar do fracasso, a tentativa conseguiu, pelo menos, reconhecimento para algumas de suas participantes. Abbie Pulling, Chloe Chambers e Tereza Babickova foram 3 das 4 convocadas para testar o carro da Fórmula 3, em setembro de 2022.
Últimas evoluções
Apesar de comentários preconceituosos contra as mulheres, dentro e fora das pistas, o espaço delas está em constante crescimento. Antes mesmo da W Series falir, a FIA já estava organizando a F1 Academy. A nova categoria, que começa a valer a partir de 2023, é projetada para o desenvolvimento de jovens pilotas.
Administrada por Susie Wolff, a divisão promete treinar e expandir as habilidades de novas corredoras. “Após verificarmos as barreiras que jovens pilotas encaram ao entrarem na pirâmide da Fórmula 1, ficou claro que elas não têm a mesma quantidade de experiência que os pilotos têm na mesma idade”, afirmou o site oficial da F1. As equipes participantes são as mesmas da Fórmula 3 e 2, tais como Prema, ART Grand Prix e Campos Racing, o que permite que elas façam parte das equipes, e tenham acesso a outros espaços além da F1 Academy.

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